quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Um Homem Morto Não Namora

Gustavo ouvia suas músicas enquanto terminava o trabalho da escola. Uma das abas da internet estava aberta no perfil de Roberta. “Por que eu ainda faço isso? Por que eu faço isso?”. Havia avistado ela pela primeira vez há um ano e meio, no começo do primeiro ano e desde lá tinha essa coisa presa na garganta. Depois de uma semana que começou as conversas tímidas com ela, veio àquela flecha nas entranhas. “Em um relacionamento sério com Daniel Pazzo.”
Não conhecia o sujeito, mas o odiava.
            Cada música em sua lista de reprodução era uma memória. “Como canções podem expressar tudo o que sentimos...” Estava ouvindo Linkin Park no momento em que vira aquilo que fora o tormento até o fim. Era como um mártir que gostava de ter, no fundo se achava masoquista. “Essa tava tocando quando ela disse que tinha feito sexo com ele...”
Não conhecia aquele cara, mas queria seu coração em uma travessa de prata.
            Olhava as fotos de Roberta apenas para açoitar a própria carne com aquele sorriso de garota comprometida. “Eu nunca a faria sorrir desse jeito.” Sabia disso porque ela só o procurava para chorar. Gustavo no fundo acreditava que o sofrimento era normal de ser atraído para si, pois a pessoa que amava só falava de coisas ruins. No fundo era tudo culpa dele, pois era uma pessoa triste e atraia tristeza. Roberta de fato merecia algo melhor, e ele seria usado como pano de chão.
Já eram dez horas e o trabalho estava praticamente pronto. Minimizou a tela e fora olhar um pouco das redes sociais. Curiosamente havia uma solicitação de amizade com um nome muito estranho. “ErFlor LaBak...”, Gustavo leu em voz alta. Esse era o nome do perfil, que tinha como foto um alfabeto com letras vermelhas em um fundo negro. Deu de ombros e aceitou, se qualquer coisa acontecesse era apenas bloquear o sujeito.
Cinco minutos depois, no meio de uma música de Bring Me The Horizon, tudo ficou silencioso e escuro. “Porcaria de queda de luz.” Depois de um segundo, Gustavo percebeu que não havia salvado o trabalho. Seu coração parou por um momento para então começar a bater com toda a força. Ele havia demorado duas horas para fazer toda a pesquisa e acertar os arremates. Sua mãe não deixaria ficar mais meia hora no computador, e mesmo assim havia caído a luz.
Deu um soquinho na testa e suspirou. “Porque eu não salvei essa porcaria?” Ele sabia o porquê: era um retardado. Sempre esquecendo as coisas para deixar para depois, e aí quando dá mal, não sabe o motivo. “Talvez se eu falar com a mãe ela me deixa ficar um pouco mais até terminar quando a porcaria da luz voltar.”
Depois de cinco minutos na escuridão e no silêncio, ele ouviu o som do microondas na cozinha sendo ligado e as luzes se acendendo. Pelo menos não havia demorado muito, e ele poderia recomeçar o trabalho rapidamente. Primeiro ele verificou avidamente se o trabalho não tinha sido salvo automaticamente, mas não encontrou nada. Suspirou e pensou em não fazer mais o trabalho. “Vale três pontos e você está precisando disso.” Abriu a internet e começou a vasculhar o histórico, para que não precisasse ter que pesquisar tudo de novo.Um som levemente familiar lhe veio. Olhou para a aba do chat do Facebook e tinha uma mensagem. “Não olhe agora, você precisa refazer todo o trabalho.” Mas não adiantou e ele fora ver quem era.
Era aquele novo amigo, o tal de “ErFlor LaBak”.
“Está procurando por isso?”, junto havia um arquivo anexado.
“Não clica nessa coisa, pode ter vírus.” Mas como era apenas um arquivo do Word, não aconteceria nada de demais. 
Ativou o antivírus e baixou o arquivo.
Sua boca se abriu em um ângulo de noventa graus quando viu o que havia. Seu trabalho, todo ele, estava ali. As imagens, tudo o que ele havia formatado, estava no arquivo que aquela pessoa mandou. Sua reação foi uma mistura de emoções. A primeira delas era a extrema felicidade de ver que não perdeu tudo, e logo em seguida as duvidas. “Como esse cara tinha o meu trabalho?” A primeira hipótese foi que ele rastreou o IP do computador e achou o trabalho enquanto tentava coletar informações. “Mas eu nem tinha salvado, não tem como alguém ter pegado.” E a terceira pergunta era: porque ele ou ela fez isso? Cada hipótese deixava Gustavo mais preocupado e assustado.
“Garoto, imprima logo isso antes que sua mãe lhe tire do computador.”
Logo quando veio essa mensagem, Gustavo ouviu sua mãe andando de um lado para outro no corredor da sala. Ele sabia que ela estava prestes a ir dormir e ele também deveria ir.
Aquele perfil estava certo de novo.
“Amanhã nós conversamos. Imprima e vá dormir.”
“Obrigado...”
Gustavo imprimiu todas as doze páginas e desligou o computador. “Eu acabei de obedecer àquele cara?” E ele nem sabia se era um homem ou uma mulher. Podia ser um maníaco que estava lhe vigiando de perto faz muito tempo.
Ele só conseguiu dormir quando quase era hora de acordar. Durante toda a noite imaginava aquele perfil, ErFlor LaBak, aparecendo das sombras do seu quarto. “Eu disse para você ir dormir!”. Era tudo muito inquietante em sua cabeça.
            Valeu à pena ter ficado algumas horas fazendo aquele trabalho, pois ele teve a nota máxima. Provavelmente não teria o mesmo valor se ele tivesse perdido naquela queda de luz... Ou se aquela pessoa não tivesse lhe dado uma cópia. Não comentou nada disso com ninguém, e era uma das poucas vezes que queria ir para casa logo. Normalmente Gustavo ficava feliz de pelo menos ver Roberta. Tinha dias que ela preferia ficar com outras pessoas, e ele entendia isso. Quando podia pelo menos trocar algumas palavras com ela e lhe admirar bastava. Mas quando ela tirava um tempo para falar com ele, mesmo que fossem seus problemas, ganhava o dia.
“Ouvir sua voz e sentir o cheiro agridoce de seu perfume é tão bom...”
            Mas hoje era um dos raros dias que a beleza estonteante de seus cabelos louros não era prioridade. Queria ir para casa e tentar a todo o custo falar com aquela pessoa, que ele não tinha uma mínima noção se era homem ou mulher. Mas uma coisa era certa: seu medo análogo a idéia de que alguém estava o vigiando.
            A tarde estava demorando a passar, os minutos eram tortuosos. Aquele ErFlor LaBak não estava online, até que quando bateu sete horas da noite, se irritou e escreveu algo no chat.
            “Como você tinha o meu trabalho?”
            “Achei que nunca fosse vir falar algo.” Nesse momento, Gustavo percebeu que ele estava ali o tempo todo.
            “Porque você não falou nada?”
            “O interesse era seu.” Aquilo o deixou irritado, mas relevou.
            “Quem é você?”
            “Não tenho um nome, só juntei letras e criei um nickname para mim.”
            “Você está me vigiando?”
            “É um pouco idiota me perguntar uma coisa dessas, já que você posta até mesmo o que come no café da manhã. Qualquer um vigia você se quiser.” Aquela pessoa estava brincando com Gustavo. Seu semblante era de raiva e medo.
            “Eu não estou falando disso. Você tinha o meu trabalho!”
            “Garoto, agora estamos começando a conversar...”
            “Você está me deixando assustado desde ontem.” Admitiu Gustavo.
            “Não tem porque, meu amigo. Eu estou aqui apenas para ajudar. Você tinha se esquecido de salvar o trabalho, eu lhe dei uma cópia.”
            “Mas como você tinha?”
            “Rapaz, tudo o que é feito no mundo digital eu tenho acesso. Eu sou onisciente em todos os computadores, servidores, e até mesmo nos livros.”
            “Você é doente.”
            “Eu? Não sou eu que fico agüentando o mártir da mulher que amo enquanto sei que ela está na cama com outro, que por sinal odeio. Não sou eu que vivo com a esperança que um dia irei me deitar com a mesma, sendo que ela adora o calor de outro. Mas eu sou o doente, certo?”
            Gustavo ficou quase cinco minutos sem saber o que responder. Aquele estranho lhe mandou tudo como se fosse um tiro de escopeta. Ele nunca havia dito aquilo para ninguém! Foi até a opção de bloquear, mas parou um pouco antes de concluir.
            “Não faria isso se fosse você, eu estou aqui para lhe ajudar.”
            Sim, aquela coisa, pois não ousava mais pensar naquilo como uma pessoa, sabia exatamente o que ele queria fazer. Afinal de contas, o que era aquilo? Parte de Gustavo queria descobrir, mas outra queria esquecer daquilo tudo.
            “Sugiro que siga em frente, Gustavo. A não ser que você volte a viver como um macaco nas árvores, eu sempre estarei por perto para lhe ajudar.”
            “O que você quer de mim?”
            “Era eu que deveria fazer essa pergunta, garoto.”
            “...”
            “Você quer tantas coisas, mas está com a bunda na cadeira em frente de um computador. Eu posso lhe conseguir essas coisas.”
            “Você é só um hacker que invadiu o meu computador.”
            “Haha. Eu posso hackear o mundo a minha volta e fazer sua vontade, Gustavo. Basta dizer seu desejo e serei seu mordomo.”
            “Eu não sei o que dizer para você, seu filho da puta.”
            “Isso, agora estamos ficando quentes! Eu vejo você olhando as fotos de Roberta e seu desejo fica ainda mais forte quando ela fala com você, mas ela te despreza muitas vezes lhe deixando sozinho com o ver sua beleza. Você a quer para si.”
            “Estou lhe avisando, se você fizer algo com ela eu te mato.” Nessa altura, Gustavo nem mais se impressionava pelo fato dele saber de seus segredos íntimos.
            “Está esquentando! O que você ganha se eu fizer algo com ela? Já te disse que estou aqui apenas para ajudar, e nada mais do que isso.”
            “Ela está feliz do jeito que está.”
            “Mas ela poderia estar feliz ao seu lado.”
            “Ela namora aquele vagabundo.”
            “Um homem morto não namora...”
            Isso foi um basta para que Gustavo fechasse as janelas e desligasse o computador. Aquela conversa maluca estava dando dor de cabeça para ele e nada fazia sentido. A única explicação que o garoto conseguia pensar era que algum colega de sala havia invadido seu computador e estava tirando onda com sua cara.
            Tinha que ser isso. Apenas uma brincadeira de mau gosto.
            Novamente, sua noite de sono não foi tranqüila e perdeu horas e horas até conseguir dormir. Duas horas depois seu despertador tocou e parecia que um caminhão tinha passado por cima de sua cabeça. A dor não se fora.
            No dia seguinte, Gustavo notou que Roberta estava quieta e não falava com ninguém. Quando decidiu ir até ela, respondeu que o namorado não havia respondido ela essa manhã, e nem ao menos visualizou as mensagens. Pretendia ir até a casa dele depois da aula, pois estava preocupada. “Novamente falando desse macho”, pensou. No fundo ele não sabia se não gostava dele ou do fato de Roberta somente falar dele. “Não. Não gosto é dele.”
            Roberta só entrou de novo nas redes sociais quando eram quase nove horas da noite, então contou o que aconteceu: “Eu fui à casa de Daniel hoje depois da aula. Quando cheguei lá, tinha um carro da policia saindo e eu entrei na sala. A mãe dele estava em estado de choque, e quem me contou tudo foi uma vizinha. Daniel amanheceu morto na cama. Ele teve várias artérias dilaceradas por um arame farpado que ainda estava enrolado em seu corpo. A mãe dele disse que não ouviu nada durante a noite, e nenhuma porta ou janela tem sinais de arrombamento. O corpo dele apresentava sinais de luta, mas não havia nenhuma evidencia que alguém entrou na casa. Acham que ele cometeu suicídio, mas isso não faz sentido...”
             Gustavo leu com atenção todas as mensagens de Roberta e quase que no mesmo instante mandou uma mensagem para aquela coisa.
            “O que você fez?” A resposta veio quase na mesma hora.
            “O que você queria garoto. Agora só depende de você para que a mulher seja sua.”
            “Você matou o namorado dela?”
            “Eu lhe disse: um homem morto não namora.”
            Gustavo não sabia direito o que pensar. Aquele ErFlor LaBak de alguma forma matou Daniel, e fez isso porque ele queria! Não, isso não era possível. Havia muita coisa passando em sua cabeça, mas não queria acreditar nisso. “Entrego esse cara pra policia?” Ele era um hacker, conseguiria se proteger muito bem e ainda poderia fazer com que Gustavo parecesse culpado.
            “A única coisa que pode lhe ajudar agora, garoto, é você ir atrás de sua mulher. Seria um pouco massivo ter que matar outro homem que abre as pernas dela, mas admito que seria tão divertido quanto foi o primeiro.”
            Aquele sujeito... Ele sabia tudo o que se passava na cabeça de Gustavo. Era como se fosse um demônio, uma coisa de outro mundo.
            Mas e se aquela coisa estivesse certa? E se essa fosse à oportunidade para conquistar Roberta? Pensando nisso, veio a outra mensagem da menina.
            “Gustavo... Eu preciso falar com alguém. Não vou à aula amanhã, poderia vir aqui?”
            Como um idiota que era, aceitou e foi. Matou aula para ir até a casa dela, duas coisas que nunca tinha feito: matar aula e ir à casa de uma garota. A primeira vista, Roberta estava acabada de tanto chorar. A maquiagem borrada no rosto e nem sequer fora tomara banho. Gustavo nem percebeu o que estava fazendo quando ela lhe beijou. A ficha só caiu depois e ela parecia que sabia o que fizera. Ele não sabia direito o que pensar. Roberta disse que não queria fazer isso, mas por um momento se parecia bastante com Daniel, mas ele sentiu aqueles lábios furiosos e apaixonados nos seus. Seu namorado havia morrido e ela já estava beijando outro no dia seguinte?
            Gustavo ficou na casa dela aquele dia inteiro. Seus pais apareceram apenas algumas vezes entre os pequenos intervalos no escritório que era perto do prédio. Eles apenas conversaram, trocaram alguns beijos que Gustavo fez com certo desgosto. Sempre sonhou com isso, mas não era como imaginava.
            Estava um pouco mal por Daniel, pois se sentia culpado.       
            Tudo começou bastante sutil entre Roberta e Gustavo, ninguém notava nada. Todos seus colegas acreditavam que pela proximidade que ambos tinham, ele estava apenas solidário com, mas havia aqueles que achavam que o garoto estava se aproveitando da situação. Sua paixão não era uma surpresa para ninguém, nem mesmo pra ela.
            Depois de um mês, Roberta nem mesmo se lembrava de Daniel. Gustavo se sentia ao mesmo tempo feliz e culpado. Estava junto com a garota que amava, mas quanto mais a conhecia de verdade, via que ela não tinha nada de profundo por trás daquelas lamurias e beleza estonteante.
            Ele era uma pessoa com bastante conteúdo, e não era difícil para ele conversar com ninguém, mas Roberta se mostrou uma exceção. Era fácil falar com ela antes pelo fato dela só se queixar sobre seus problemas, mas agora que tinha a oportunidade de ficar com ela por muito mais tempo, a menina tinha conversas vazias e bastante fúteis com Gustavo.
            “Que tipo de sujeito era esse Daniel? Devia ser um imbecil que só queria comer ela ou era tão vazio quanto.”
Essas visões superficiais de Roberta foram um pouco ofuscadas quando eles fizeram sexo. Era a primeira vez de Gustavo, e isso pesou nele. Sentiu-se novamente apaixonado pela garota, e esse êxtase durou duas semanas, quando eles fizeram de novo outras vezes.
            No fundo, Gustavo era uma pessoa sentimental, mas inteligente. A imensidão do vazio da garota só era brevemente preenchida quando estava dentro dela, mas depois disso tudo voltava a ser como antes. Uma loira burra e mimada, que sempre conseguia passar de ano sabe lá Deus como. “Pelo menos Daniel ‘treinou’ bem ela.” Era um pensamento bastante desrespeitoso com uma pessoa morta, mas no fundo ele pensava realmente isso. Gustavo ainda estava com a garota por pena dela e do homem que, quer queira quer não, acabou provocando a morte.
            Ele sabia que aquele ErFlor LaBak tinha o matado. E fez isso por Gustavo, que ficou muito tempo observando. De certa forma ele se sentia agradecido por aquela coisa, mas no final das contas não era tudo isso que ele pensava.
            Era uma pequena reunião de família, que era nem um pouco questionável que Gustavo gostava da companhia de seus primos. Já haviam passado algum tempo desde o começo dessa história, e talvez em uma festa modesta fosse tirar isso da cabeça por algum tempo, mas a verdade foi diferente.
            “E como está com a menina, Gu?”, Indagou Mario, um menino magro e de óculos de aro grosso.
            “Honestamente, eu to pensando em terminar...”
            “Mas por quê? Vocês estão sempre postando fotos tão felizes!”, o primo retrucou com certo espanto na voz.
            Esse era o problema: todos achavam que estava tudo bem com eles pelo o que viam nas redes sociais. Ninguém conseguia ver o que se passava por quatro paredes e a grande concha vazia que Roberta era. Muitos de seus amigos lhe diziam “seu malandro esperto, um cara inteligente como você merece conquistar uma gatinha como ela”, mas estava vendo que não foi nenhum pouco inteligente. Passou um ano e meio querendo algo que não era o que ele pensava.
            Mas porque ainda ficava com ela? Será que era pena, queria aproveitar os espólios depois de tanto tempo?
Ou sentia medo? Mas de quê?
            Eram nove e meia da noite. Gustavo estava evitando um pouco Roberta, e pretendia romper com ela no outro dia. Quando então chegou uma mensagem de alguém que ele não queria ter que conversar novamente.
            “Como está com a garota, Gustavo?” O garoto demorou um pouco para pensar em uma resposta, pensando no que poderia vir.
            “O que você quer?”
            “Eu só estou preocupado com você. Evitando sua mulher assim, alguma coisa deve ter acontecido.” Ele nada respondeu, então ErFlor LaBak continuou: “Você se cansou dela, não é mesmo?”
            “Não é da sua conta, infeliz.”
            “Se cansou mesmo... talvez você queira se livrar dela, não é mesmo?”
            Algo aconteceu no computador de Gustavo. Abrira uma aba com um vídeo ao vivo. Por um momento seu coração parou, pois percebeu de onde estava vinda aquela gravação. Era do quarto de Roberta, de seu webcam.
            Ela estava em um estado catatônico, sentada na cama. Uma grande sombra escura emergia do centro de seu quarto. Tinha a silhueta de algo humanóide, como um grande chimpanzé esquelético e muito mais alto.
            De suas sombras, emergiram vários fios pontiagudos que começaram a enrolar o corpo de Roberta. A menina começou a sangrar dentro do arame farpado que saia do corpo daquela criatura negra, mas nada disse. Gustavo caiu da cadeira do computador quando aquela coisa olhou para a câmera.
            “Achei que você fosse gostaria assistir essa coisa morrendo.”
            A sombra começou a ficar mais próxima da câmera quando então aquilo aconteceu.
Da tela do computador emergiu a mesma coisa que havia matado Daniel e Roberta. Gustavo estava no mesmo estado de choque com aquilo que estava vendo. Sua garganta se fechou e mal podia respirar. Aquela sombra negra tinha cheiro de tinta e metal, e possuía vários olhos negros por todo o corpo.
            “Você não gosta do que lê?” A coisa emitia um som que mais parecia um sussurro. Não tinha certeza, mas a voz parecia sair de todo seu corpo.
            Não teve muito tempo para pensar sobre isso.
            Ele nada respondeu, pois sua garganta estava muito apertada. Sua língua havia se colado ao céu da boca como se fosse uma só coisa. A criatura deu um passo à frente e sacou uma folha do papel da impressora de Gustavo. Um líquido negro começou a pingar de sua mão em cima do papel, formando palavras.
            “Aqui está sua carta de despedida garoto. Você está confessando seus crimes aqui. No fundo, é tudo culpa sua.”
            De um dos olhos da criatura emergiu um grande fio de arame farpado que se enrolou no pescoço de Gustavo. O sangue quente escorria pelo seu corpo enquanto o fio era pregado no teto, junto ao ventilador. Gustavo tentou lutar, mas sentia sua cabeça sendo dilacerada pelas farpas do arame.
            “Eu lhe disse, Gustavo: um homem morto não namora.”

            Seu estado de choque não passou até ver a criatura entrando de volta pela tela do computador e desligando a máquina, enquanto sentia sua vida se esvair a medida que sangrava. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Meu Primeiro Livro!



Boa Tarde!
Hoje irei falar sobre meu primeiro livro, publicado pela editora Fragmentos:
"O Poeta".
O livro conta a história de uma figura enigmática nas redes sociais que publica vários poemas estranhos e sem muito sentido, mas o que ninguém sabe é que esses textos possuem um significado tenebroso por trás, e todos que o idolatram estão em perigo.
A narrativa mostra várias histórias paralelas que se interligam, cada uma contando um pedaço de um todo. Esse livro é o primeiro de uma trilogia que estou planejando há algum tempo, e ele nasceu como uma creppypasta que eu mesmo escrevi e publiquei aqui na Oficina há alguns anos.
O livro por enquanto pode ser adquirido pelo próprio site da editora clicando AQUI, mas em breve também estará disponível nos sites de outras livrarias.
Espero o feedback de vocês! ;) 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Não Sou Louco!

Começo dizendo que não sou louco! Quem quer que ache essas palavras (eventualmente irão encontrar), precisa entender isso antes de continuar lendo, caso contrário pode parar nesse exato momento. Sei que estou condenado à morte, preso nesse lugar infernal, mas quero ter a chance de deixar minha versão dos fatos.
            Trabalhei desde minha juventude como caixeiro viajante. Teria condições de trabalhar na padaria de minha família, mas a monotonia é uma coisa que não me agrada. Nunca gostei de ficar em um só lugar, comer as mesmas coisas, deitar com as mesmas mulheres, nada disso. Meu espírito aventureiro não me permitia isso. Trabalhar viajando era a melhor coisa que pude pedir, e graças a meu pai (que Deus o tenha), consegui esse emprego.
            Confesso que fiz coisas muito erradas durante os poucos anos que trabalhei com isso. Não me envergonho de dizer que fui infiel com a minha noiva na época, pois como havia dito, não consigo deitar com uma mesma mulher por muito tempo. E foi em um desses bordéis que começou o que é meu tormento até hoje.
            Não tenho certeza do que aconteceu, se alguém me drogou ou se foi algum castigo, mas após acordar em uma manhã, com duas prostitutas ao meu lado, não conseguia mais tirar aquilo da cabeça. Não sei como descrever. No começo acreditava ser algum pernilongo, mas os insetos não fazia o ruído metálico que mais parecia. Assemelhava a uma música, porém tocada em instrumentos concebidos por uma mente caótica e com uma batida frenética, porém meus poucos estudos de música me permitiram perceber que havia algum tipo de progressão. Aquilo começou a me enlouquecer logo nos primeiros minutos. Não importava o que eu fizesse: nada fazia com que aquele som fosse embora!
Minha família começou a perceber meu estranho e justificável comportamento. Não conseguia mais dormir, nem mesmo com uma forte bebedeira. Comecei a ficar agressivo, e não muito depois disso acabei por ser demitido. Passei a fazer alguns trabalhos na padaria de minha família, apenas para não dizer que não fazia nada, mas a verdade é que não conseguia fazer. A maior parte do tempo, minha cabeça fervia de dores e meus ouvidos explodiam. Aquele som... Misericórdia!
            Porém algo aconteceu durante meu curto período de trabalho que fez com que minha agonia diminuísse por um curto instante. Minha irmã havia cortado acidentalmente o dedo com uma faca enquanto preparava massa para pão, e seu grito de dor fez com que a pressão em minha cabeça aliviasse por um breve momento. Aquilo parecia absurdo, mas volto a dizer que não sou louco!
Mas eu resolvi testar.
            Naquela mesma noite, quando minha noiva veio ao meu quarto, não hesitei em lhe atacar com uma faca. Seu grito de dor fez novamente com que o som em minha cabeça diminuísse. Percebendo isso, lhe ataquei várias e várias vezes, e cada vez que ela gritava em agonia, mais eu me sentia aliviado. Porém, quando seus gritos cessaram, a dor começou a voltar num ritmo constante.
            Eu não deixaria isso acontecer. Eu não sou louco para isso!
            Perguntava-me como que os gritos não haviam chamado a atenção dos vizinhos, no entanto me enganei quanto a isso. Minha casa começou a ser invadida: aquele era o momento para eu me amenizar! Ataquei todos os homens que invadiram com a faca em uma fúria desesperada, e cada vez que aqueles resmungavam de sua dor, a minha diminuía. Até que em determinado momento, conseguiram me desarmar e conter com fortes golpes de pedaços de pau, chutes, socos e coronhadas.
            Nos poucos dias que fiquei na prisão, tive o prazer de ouvir os gritos de dor de outros detentos, quando eram espancados pelos carcereiros ou outros presos. Mas para meu azar, aquela era uma cadeia bastante vazia e não pude ouvi-los por muito tempo. Eu precisava tirar aquela música da cabeça, então comecei a agir ali mesmo. Agredi com socos, chutes e mordidas todos que entravam em meu alcance, só para poder ouvir no mínimo um resmungo do menor desconforto que fosse.
            Não sei o que minha família disse para as autoridades, nem porque fizeram questão de examinar a minha pele (inclusive de minhas genitais), mas minha sentença foi clara logo no início: sanatório de Ghartov. Aquilo não poderia ser melhor para mim! Volto a dizer, eu não sou louco, mas em um hospício eu poderia me deleitar com vários gritos de dor, correto?
            Errado! Esse lugar me deixa pior a cada dia! Claro, aqui eu consigo ouvir vários gritos, e muitos deles dolorosos, mas o fato é que a maioria deles estava misturada à loucura de meus colegas, e isso me deixa pior! Eu acreditava que não havia como piorar, mesmo depois de toda a dor e barulho originais voltarem à tona, mas a verdade é que tinha como sim! Quanto mais eu ouvia os resmungos, gemidos e gritos de loucura dos outros, o som tomava outras proporções em minha mente, como se alguém pegasse meu cérebro e o amassasse como massa de pão. Você acha que quando se leva um choque elétrico na cabeça, você grita de dor? Não! Eu sei disso, porque levei vários e digo que não dói. É o grito de uma mente primitiva, como o choro de um bebê ao sair do ventre da mãe.
Consideram-me um paciente perigoso, pelo fato de querer agredir qualquer um que chegue perto de mim, mas tente entender! Eu não conseguia sentir alívio se não fosse assim. Qualquer sinal sonoro de sofrimento me dava uma pequena brecha para poder respirar.
Estou completamente isolado, em um quarto que só é iluminado brevemente por uma janela ao nascer do sol, e no restante do tempo estou completamente no escuro. Escrevo isso nos poucos momentos de luz que tenho, utilizando um papel que encontrei por aí (já nem me lembro onde) e o sangue de ratos que eventualmente me fazem companhia. Já fazem muitos meses que moro aqui, recebendo duas refeições sem gosto por dia. Estou no mais absoluto silêncio externo, mas a música continua em minha cabeça. Sei que não irei sair mais daqui, mas sonho com o dia em que ainda poderei ouvir, mais uma vez, os gritos de dor e agonia, talvez tantos que esses sons irão embora por completo.
E volto a dizer: eu não sou louco!              


(Manuscrito encontrado em um tijolo solto em um quarto do subterrâneo, após a instituição ser fechada. Não possuí data, mas pelas descrições no texto e depoimento de funcionários mais antigos, acredita-se ter sido escrita em meados de 1920.)

sábado, 1 de outubro de 2016

Esclarecendo algumas coisas

Saudações, aqui quem fala é o Gabriel/Dremock.

Eu sei que muitos dos que acompanham o blog há algum tempo (esse meu público pequeno, mas muito estimado) podem estar se perguntando: "Alguns dos contos do blog sumiram, o que aconteceu?"

Bom, de fato, alguns dos contos do blog sumiram, mas foi por um bom motivo. O primeiro deles é que alguns desses contos que removi, tinham uma história boa, porém o texto não estava do jeito que eu gostaria. Escrevo aqui no blog desde o começo de 2014 e desde lá minha escrita e senso critico melhoraram. Podem ver que contos vem melhorado em quesito de escrita e narração do começo do blog até agora. Então, alguns desses meus contos antigos tinham uma boa história, uma boa ideia, mas a escrita ainda estava de uma forma amadora e eu não gostei nenhum pouco disso. Então, o primeiro motivo do qual eu os removi foi que eu os melhorei na parte da escrita e os deixei esteticamente melhores e até mais confortáveis de serem lidos. O segundo motivo foi que eu decidi usar esses contos que eu removi em uma coletânea para publicar.

Quem ainda tem paciência para ler o que escrevo (risos) e acompanha o blog desde 2014, sabe que a primeira história que eu publiquei aqui se chamava "O Poeta", e essa também sumiu. O motivo disso foi que ele está para ser publicado pela Editora Fragmentos agora no final do ano. Ela é uma história muito extensa para ser publicada em um simples blog, além de que ela seria um bom caminho para seguir na carreira de escritor, então decidi mandá-la para as editoras e fui contemplado pela que citei acima.

A mesma coisa aconteceu com os contos que removi. Ainda estou organizando essa coletânea e não tenho editora para a mesma, além de que me falta escrever mais dois contos para concluí-la, mas o que quero dizer é: não se preocupem, essas histórias não estão "perdidas", e sim só trocando de plataforma.

O blog não vai parar, podem ficar tranquilos (ou não), pois eventualmente estarei publicando alguns contos ou até mesmo republicando contos antigos, mas mais "lapidados" (como o que aconteceu com "Canção Para Amanda", que troquei para "Magnum Opus" e com uma escrita pouco melhor). A questão é que, como eu ainda almejo ser escritor profissional e tudo mais, eu preciso começar por algum lugar. Embora uma das minhas portas de entrada seja o blog, não posso ficar aqui para sempre, então eventualmente terei que migrar para outros rumos. E como tinha vários textos prontos, decidi utilizá-los para não desperdiçar meu trabalho.

Mas, em respeito a vocês, decidi manter aqui no blog vários contos que eu desejaria usar em uma coletânea ou até mesmo na mesma que estou montando, mas não quis fazê-lo. E não pensem que tomei essa decisão por achar que determinados textos estão "piores" do que os que removi (não me considero um escritor bom, ou pelo menos, bom o quanto gostaria, mas sei muito bem que existem histórias minhas que são melhores e piores do que outras), mas sim, em respeito a muitos de vocês, que não são muitos, admito, mas que estão aqui e acompanham o trabalho de um jovem meio bizarro e com vários sonhos.

Então é isso o que eu queria deixar para vocês. Como disse, o blog não vai parar, embora nos últimos tempos as postagens estejam escassas, mas o fato é que não vai parar. Eu sei que raramente dou as caras pessoalmente por aqui, mas quando isso é necessário, cá estou. Em breve vou dar mais detalhes sobre o lançamento do livro "O Poeta", então acho que vou começar a aparecer mais "pessoalmente" daqui pra frente.

Era só isso que eu tinha pra dizer. Agradeço a quem leu até aqui e acho que nunca agradeci por escrito por todo mundo que vem aqui e lê meus trabalhos, então: OBRIGADO! :)

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Magnum Opus

Amanda estava ficando cada vez mais doente. Ninguém sabia dizer o que tinha, mas meu amor estava morrendo. Ela sempre me apoiou e passamos até fome juntos, mas sempre ficamos um ao lado do outro. Agora tenho um violão e meus braços, e seu cadáver em minha frente.
            Conheci-a enquanto tocava em um bar, durante os meus vinte e poucos anos. Eu tinha uma banda na época, e ela se interessou por mim e eu por ela. Lembro-me até mesmo de que quando notei sua presença do palco me desconcentrei a ponto de quase arruinar a música. Foi uma situação um tanto engraçada e embaraçosa.
            Começamos a sair e a namorar pouco tempo depois de que ela veio falar comigo após a apresentação. Amanda era uma mulher muito bonita, de cabelos louros e olhos azuis. Gostava de música popular, e principalmente, das minhas. Eu não gostava nem tinha muita facilidade para cantar, mas tocava violão e guitarra muito bem. Era o que eu mais adorava fazer, e tirava meu sustento disso.
            E Amanda me apoiava sempre para eu seguir em frente com a minha música, mesmo depois que fomos morar juntos e tivemos muitas dificuldades com dinheiro. Sua família a condenava por ter escolhido viver comigo e me odiavam muito. Seu pai muitas vezes lhe chamara de vagabunda e de inconseqüente, por colocar sua vida no lixo para viver com um fracassado, que nunca poderia dar uma boa vida.
            Por conta disso, era só eu e minha esposa. Nós contra o mundo, e o mundo contra nós. Mas mais forte que tudo isso era o nosso amor. Quando sempre parecia que não havia mais esperança para nada, encontrávamos forças um no outro.
            Até aquela manhã.
Certo dia me veio a idéia de uma composição. Não de maneira completa, mas fragmentada. Estranhei essa invasão minha mente. Era boa, mas um tanto peculiar. Tomei meu violão e comecei a tentar formar a música. Ela era mais difícil do que eu imaginava de por na prática, e até mesmo pensei em desistir quando não conseguia ajustar os acordes e não definia o tom certo. Mas ela me viu compondo aquilo e ficou boquiaberta. Segundo Amanda, minhas composições todas eram maravilhosas, mas essa em especial, tinha potencial para ser a melhor de todas. Depois de dizer tudo isso, sorriu.
Aquele sorriso delicioso me deu um novo vigor e eu me determinei a terminá-la.
            Era difícil, mas eu não conseguia parar de tentar. E quando ela demonstrou sinais de que estava ganhando vida, Deus me perdoe por não ter percebido, Amanda começou a demonstrar sinais de que estava ficando doente. Começou com coisas simples, como um resfriado, e aos poucos essa coisa estava evoluindo para alguma coisa maior. Os médicos não sabiam dizer o que estava acontecendo com ela, mas estava ficando cada vez mais fraca, e sua voz cada vez mais baixa. Seu cabelo e olhos foram perdendo o brilho e sua pele ficando cada vez mais pálida.
            Eu estava desesperado. Pensei em avisar a família dela, no entanto ela recusou. Parecia ter aceitado tudo aquilo. Os médicos me disseram que Amanda não iria sobreviver muito tempo, e que eles fizeram tudo que podiam. E parece que ela sabia disso.
            Em sua fragilidade, apertou minha mão na cama do hospital e pediu com sua voz fraca e rouca, quase como um sussurro, que eu tocasse para ela aquela música. Queria ouvir minha maior obra prima antes de partir. Um nó se formou em minha garganta com aquele pedido. Eu havia trazido meu violão para o hospital, pois achava que ela iria querer algo do tipo, mas não pensei que ela fosse querer ouvir aquela composição.
            Busquei o instrumento e pedi para ficar sozinho com Amanda. Sentei-me em uma poltrona ao lado de seu leito e comecei a tocar. O tempo inteiro, eu estava me esforçando para não chorar na frente de minha esposa, mas eu não conseguia. A medida que a música fluía de meus dedos, as lágrimas escorriam de meu rosto.
            Quando toquei o acorde final, me atrevi a olhar para o rosto de Amanda. Seus olhos estavam parados e um sorriso estampado em seus lábios. Eu nem mesmo lembro-me do que aconteceu depois, mas fiquei chorando com meu violão no colo.
            Os dias seguintes se passaram sem muita pressa, mas rápidos como um trovão. Não tinha mais nenhuma família. Não sentia o gosto das minhas refeições, não achava graça em nada, nem mesmo tocar me dava prazer. Eu não sabia que idéias tentar, nem tinha vontade de pensar nisso.
            Mas daí então, em uma das minhas caminhadas sem muito interesse, eu passei na frente do bar onde a conheci. Minha alma se encheu de nostalgia e dor. O lugar estava um pouco mais bonito, mas ainda parecia ser o mesmo. O dono estava do lado de fora e me reconheceu. Conversamos por alguns minutos, e o mesmo me convidou parar tocar no bar. Eu estava sem trabalho naquele momento, e pensei que talvez algo para me ocupar me fizesse tentar esquecer por algum tempo. 
            Aceitei e comecei a treinar algumas canções que ele pedira. De certa forma, aos poucos eu via na música algo que eu talvez pudesse ir em frente. Cada acorde tocado me lembrava Amanda e toda a força que ela me deu durante esses anos todos. Um sorriso se estampou em meu rosto. Decidi que não iria deixar que toda a força que ela me deu fosse em vão. Iria continuar, pela sua memória.
            Chegou à noite e eu estava no camarim do bar. Havia um número considerável de pessoas. Não estava nervoso, pois já havia tocado várias vezes e eu gostava muito daquilo. As pessoas estavam gostando muito de meu desempenho e isso me deixava mais animado. Talvez fosse o mais perto de felicidade que eu havia obtido nesses últimos tempos.
            Mas daí me surgiu a idéia de tocar uma música minha. Eu tinha várias composições, e fiquei um pouco indeciso no que tocar. Então me lembrei da que Amanda havia pedido para eu tocar em seu leito de morte. Eu estava com receio de tocá-la, mas decidi homenagear minha finada esposa com essa canção. Anunciei no microfone que tocaria uma música própria e todos voltaram a atenção para mim. Fiquei um pouco nervoso, admito, ainda mais quando todos ficaram um pouco quietos.
Então comecei a tocar. Batizei-a de “Amanda”.
            O som fluiu como uma brisa de verão, tão natural quanto o canto dos pássaros. Fechei meus olhos e continuei tocando por vários minutos. Comecei a perceber que a música era, definitivamente, a minha melhor. Magnum Opus. É, essa era minha Magnum Opus. Eu pensei em Amanda o tempo todo em que toquei, e o público estava quieto, mas eu não percebi isso.
            Foi então quando toquei o acorde final, enquanto abria meus olhos. Não entendi nada do que havia acontecido ali, mas um frio subiu minha espinha.

            Todos estavam caídos no chão com um sorriso no rosto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Coletânea de Poemas

Sadismo

O que é de minha humanidade?
Minha loucura tirou meu melhor
E eu fantasio apenas o pior
Para alimentar minha insanidade

Eu imagino o sofrimento
Nas curvas de seu sorriso
No mais longínquo abismo
Eu ouço seu choro de lamento

Tome esta pá, coveiro
Eu quero que me enterre vivo
Mas me tire desse abismo

Tome esses restos, carniceiro
Não deixe essa lâmina enferrujar
Para minha loucura nunca curar






Suicídio

Ela está pensando em se matar
Seu corpo está emerso no lago
O chão seus pés não podem tocar
Está pensando em seu estrago

Não se lembre de suas virtudes
Sua respiração ela pode ouvir
Tão frio e duro como suas atitudes
Agora ela consegue dormir

Ela já me amou um dia
Ou assim a fiz pensar
Todos estão no alcatrão

Assim como o fumante com nicotina
Todos são viciados em amar
E isso é mais um palavrão


  



Observe

Você está perdido na fumaça
Dos corpos que queimou
A fuligem entra pela sua boca
O câncer corrói seus pulmões

Tua carne é comida pela praga
Que tua filha criou
Teus gritos a deixam louca
Isso consome os pulmões

Olhe para a serpente
Que alimentou no seio
Olhe para o parente
Que guardou no peito

Eles gozam de tua agonia
Não há nenhum ar livre de fumaça
Quebre esses elos e te enfureça
Mostre esse demônio na fumaça






Milagre

Maldito seja o leite que mamei
Maldito o ventre que me produziu
E todos aqueles a quem mentiu
Porque ao teu chicote me apeguei?

Teu filho foi nutrido com sangue
Mesmo do mais nobre
Ele quer beber do meu sangue
Mesmo do mais pobre

Sangre teu maldito veneno
Que tua voz solta
Sobre tua amada morta
Declame teu soneto nojento

O frio tira a vida da Terra
Essa névoa fede a enxofre
Tudo piora perto da serra
E o que fica é frio e podre






Corvos

Ser de asas negras
Que voa acima da carniça
Ave de penas pretas
Que sobrevoa a carne apodrecida

Quando ele é avistado
Trás o anuncio da morte
Ele é visto pelo homem listrado
E pelo guerreiro bravo e forte

São mensageiros das trevas
Voam acima da batalha
Se fartam com a carne da mortalha

Trazem um cheiro de podre
Tal como o enxofre
E da morte gralham sobre

Seu bico fura a carne fraca
E ela entra como uma faca
Os espantalhos tentam afastar
Mas dos restos estão a se fartar

Seu gralhar os moribundos podem ouvir
Almas penadas para eles estão a sorrir
Seus olhos podem ver tudo
Da podridão ele limpa o mundo

Corvo, ave de cor negra
Seu choro ecoa pela igreja
Corvo, ser de atos sombrios
Coma esses restos frios





Universo

O frio cósmico flagela
O calor das estrelas não basta
Essa galáxia congela
Morte também tem sua graça

Estou aqui nesse mundo
Com bilhões de anos de idade
Essas explosões me deixam surdo
Cômico é toda essa maldade

Algo emerge nos abismos celestes
Silencioso e rápido como uma cobra
Que desliza na grama dos estepes
Pavimentando tudo o que sobra

Gargantas foram cortadas pela faca
Assim que regresso de meu retiro
É assim que o universo acaba
Não com um estouro, mas com um suspiro




Cansaço

Com o vinho ao meu lado
Um olhar frio e pesado
Tinta e pena como fardo
Sinto-me muito mudado

Sentado em uma solidão
Acompanhado da podridão
E a música de um vilão
Olho para essa vil situação

Cada verso é curto e assimétrico
Mas nenhum pouco eclético
Então que seja estético

A grande carreira dos mortos
Que deixa dizeres tortos

Nos já fadados portos 




Aguardo

Através dessa montanha
Do qual não posso escalar
Há um vale tão fundo
Que o Sol não pode iluminar

As estrelas são minha companhia
Enquanto olho a parede de pedra
Que sempre tento subir
Caí e quebrei ossos e sonhos

Mas não estou sozinho aqui
Apesar de me sentir assim
Vários fantasmas e monstros
Observam minha agonia

Estou ferido, com várias dores
Além de escrever com sangue
Essas palavras que enviarei
No bico de uma ave moribunda 




Dores

Filhos da Noite
Nascidos na lua cheia
Assombrados pelo silêncio
Alimentados com cinza de corpos
Filhos da Noite
Adoradores da lua cheia
Acompanhados pelo silêncio
Besuntados com sangue de corpos

Na noite sem estrelas
Onde as nuvens pesam
Respiro um vento frio
Que faz meu pulmão doer
Na noite sem estrelas
Quando as almas pesam
Sou cortado com ar frio
Que faz meu coração doer

Dói demais essa noite
Do qual meus filhos nasceram
Ninguém poderá intervir
Nessa loucura
Dói demais essa noite
Do qual meus inimigos nasceram
Eu não posso intervir

Nessa loucura